Coletivo Brancaleone

domingo, 17 de julho de 2011

RESENHA PRÉ MANIFEST 7

Por Fernando Feio

Dizer que tenho orgulho de ser punk estava meio inviável nos últimos tempos... afinal, como todos que acompanham esse blog já sabem, vivemos uma época em que todo mundo é punk por simplesmente achar legal, curtir um “rolê”, mostrar um visual, não colocar sentido nenhum na sua vida como punk, apenas sendo uma fase de auto-afirmação de sua vida (sempre coincidindo com a adolescência, fase de afirmação natural e biológica do ser humano) e de 70% dos casos de forma efêmera: Uns desistem, outros viram skinheads fascistas, outros viram Punks fascistas, se integrando a grupos que, por mais que ostentem o “A na Bolinha” na sua indumentária, não fazem porra nenhuma pelo movimento punk, ficam “fiscalizando” quem você é, com quem você anda e se achando no direito de querer ferir alguém com faca, tiro, ou matar simplesmente porque não segue aos critérios do manual de instruções da quadrilha pseudo-punk, que já inclusive consolida chavões e bordões típicos para justificar o injustificável, coisas como: “Fulano é pilantra”, “Fulano é safado” ou “Fulano dá a mão pra careca”. Pilantra é quem te prejudica diretamente,geralmente os “pilantras” nunca nem chegaram a 10 metros de distancia do acusador; safado é quem gosta de sexo; e quem dá a mão pra careca é muito burro pois se for pra decepar alguma parte do corpo que ao menos venda.
Enfim, esse tipo de gente, que sempre fez, faz e fará merda, diversas vezes me inspirou a perguntar a mim mesmo: Que porra que eu tô fazendo aqui no movimento punk, tirando dinheiro do meu bolso, fazendo as esposas dos integrantes da minha banda brigar com os mesmos pela frequência de shows que desencadeia na falta de tempo para a família, carregando aparelhagem nas costas e escrevendo para este blog? Poucos frutos positivos consegui dando o sangue pelo movimento Punk, de resto só gente invejosa falando mal de mim, parasitas de porta de galeria querendo me matar, usando os jargões há pouco citados, prejuízos financeiros e até mesmo físicos, machucando-me várias vezes carregando o peso de amplis enormes e instrumentos em ônibus – quem me conhece sabe do que estou falando.
Porém, a melhor coisa que fiz em toda minha vida como Punk foi conhecer os Punks das antigas. Que construíram esta cena, e que ainda nos ajudam, mostrando como se faz um movimento perdurar por décadas apesar dos pesares. E não só conhecer, mas ser reconhecido por pessoas que já comeram o pão que o diabo amassou pra manter essa porra viva forma mais uma injeção de ânimo. E trabalhar junto com os velhotes jovens da cena me faz ver na prática que o que estive fazendo nestes quase 10 anos de dedicação ao Punk é a legítima continuação do que eles fizeram para construir isto. Para ser punk, além da atitude, do senso crítico e da coragem, tem que ter acima de tudo amor a tudo o que se faz, que gera maior dedicação e maiores resultados e sede de viver, se colocando em seu lugar e tratando apenas do que interessa – e a vida alheia, tão interessante para os pregos, não nos interessa.
E antes que me perguntem onde está a porra da resenha, termino este testemunho emocionado do poder de Deus em minha vida graças ao suor vendido pelo pastor Waldomiro Santiago dizendo que uma das melhores experiências de minha vida foi ingressar no Coletivo Brancaleone Punk Rockers. Um legítimo encontro de gerações que está botando a mão na massa para que o Punk siga vivo e resistindo culturalmente, que se valorize cada vez mais e que gere mais união entre quem leva o Punk a sério, a ponto do público dar feedbacks e congratulações a cada evento por nós realizado, tendo o mesmo a consciência que pagar entrada é importante para cobrir despesas e que um mal entendido se resolve em conversa (ou em sexo), e não em porrada, facada, paulada ou rolo de macarrão. E sentimo-nos honrados em ter realizado no último sábado o Melhor evento do ano em minha humilde opinião e na de várias que ali estiveram – Há quem acredite que os festivaizinhos do hangar feitos por quem não sabe o que é se fuder pelo punk há muito tempo só visando lucro ainda são o supra-sumo dos eventos Punk. E olha que o ManiFest é só em novembro. Mas este evento de sábado foi só um petisco do que será este festival. Show das bandas e do Público.
Lá vai eu virado de mais uma noite de pinga pura com os Punx colombianos aqui presentes (Que renderá uma postagem sobre as dificuldades e as gigs deles por aqui em breve) e com uns rockeiros de praça que são a companhia mais divertida da periferia abrir minha loja atrasado para fechar cedo. Era dia de Muito, mas MUITO trabalho pró pré-manifest 7. Grande expectativa do coletivo e do público, este evento tinha tudo pra dar certo. E Deu! Mas logo na chegada á estação de trem quase que troco o otimismo pela lei de Murphy: Saindo do torniquete da estação de Trem de São Caetano do Sul, dou de cara com uma reunião de Carecas, uns 20, e passo vazado. Estava sem visual e assim achava que ia adiantar algo. Eis que escuto algo como “É punk, é punk” e aperto o passo sem olhar pra trás. Mas percebo a presença de uns três em minha bota e olhando para trás não estavam muito longe. Eu, com um contrabaixo e uma pesada mochila mostrei pra eles que eu posso ser melhor atleta que eles e ganho a corrida, afinal a distancia favorecia minha dispersão e eles também desistiram logo ao entrarem em uma rua movimentada. Depois de tirar o coração da boca e o empurrar de volta ás minhas entranhas, chego ao Cidadão do Mundo já bem arrumadinho e limpo para dar os últimos retoques, como montagem do som, início da discotecagem que embalou os presentes enquanto as bandas não começavam , ajustes na mesa de som e pré-montagem do palco, que foi concluída pelo Babão (Lokaut), cara que entende do assunto infinitamente mais do que eu, analfabeto musical, mas assim insistente.
Enquanto isso, Mara, á paisana, ia na estação e via que a carecada continuava lá na porta da estação, bem na saída. Já se fazia clara a intenção do grupo: Espancar Punks sozinhos ou em pequenos grupos que fossem chegando ou, quiçá, invadir ou avacalhar o evento. Depois que saíram da estação, foram para um bar numa rua atrás do som. Mas não fizeram nada demais e foram embora. Sabiam da Grandeza do evento e que poderiam sim levar a pior se fizessem algo. Curioso que nenhuma viatura da polícia ou da Guarda civil circulava pelos arredores, isto facilitaria e muito a ação do grupo em caso deles conseguirem agredir ou até mesmo matar alguém. Não se soube de ninguém agredido por esse grupo, que talvez se apoiou na manifestação do 9 de julho promovida por grupos fascistas para depois rumarem para lá...
O tempo foi passando, o público chegando e nada das bandas... todas a bandas já sabiam de seu horário, das recomendações e responsabilidades. Mas a grande maioria decidiu chegar justamente em cima da hora de suas apresentações. Mas desta forma, todos os horários foram seguidos á risca e tudo rolou sob controle. O Tempo de palco para cada banda foi de 45 minutos e o tamanho do repertório de cada banda foi determinado pelas próprias: Quanto mais tempo arrumando as coisas, afinando, enfeitando ou simplesmente enrolando, menos tempo teriam para tocar. Mas em geral deu pra todas as bandas que tocaram Apresentarem seu trabalho de forma satisfatória.
Primeira banda a tocar, a Adios Girl abriu o evento em grande estilo, apesar de como sempre na primeira banda ter pouca gente presente. Banda relativamente nova, não tinha muitas músicas próprias e apostou bastante em covers bacanas de Subviventes, Ramones e Garotos Podres. O som é muito bem tocado e a Vocalista/Guitarrista canta muito bem, bela voz e bela Garota hehehe...
Em seguida foi a vez do The Beber’s Operário, de Itatiba, que mandou ver um som próprio de qualidade. Todos os integrantes da banda já são veteranos de cena, o que proporciona uma maior qualidade e maturidade no som da banda, um Punk Rock clássico e empolgante com refrões marcantes. A casa ainda não estava com um grande público mas as pessoas iam chegando aos poucos e engrossando a plateia do Bebers.
Terceira banda da noite, o Amnésia Coletiva, de Jacareí, Chegou exatamente bem na hora de tocar e o que vos esceve aqui doido da vida na pressa de coloca-los no palco. A casa já estava relativamente cheia e eles mandaram ver um repertório que enfim formou a primeira roda de pogo da noite, com a galera que veio da região do vale do paraíba e dos presentes do local que já possuem o Cd Split com o Pé Sujus, cantando as músicas e participando ativamente do som que foi muito bem tocado, uma energia imensa emanada do vocalista lecão ao público e ao restante da banda fizeram da apresentação do AC algo surpreendente até a quem não conhecia a banda.
Quarta banda a tocar, o 88 Não! Fez uma apresentação dentro do padrão de qualidade da banda: Uma música atrás da outra, direto e reto, com vez ou outra uma pausinha para conversar com o público, que pogava e cantava junto as músicas da banda e os covers de bandas como 2 minutos ou Attaque 77.
Depois veio a banda Lokaut, com a casa já absolutamente lotada fazendo um show que consolida cada vez mais a banda como uma das que serão definitivas para o futuro do Punk rock: Apesar de existir há bastante tempo, a banda só engrenou mesmo após seu retorno em 2009, fisgando um público fiel e conquistando mais admiração por onde passam, e o show de sábado foi a prova disso. Esperamos ansiosamente pelo lançamento do CD em fase de finalização!
Em seguida, veio... hehehe... Pé Sujus! Casa completamente cheia. Gente que veio ali para nos ver. Aparelhagem boa. E me achando pra caralho, na moral, Arrebentamos! Melhor show nosso em anos! 10 músicas apenas, mas o suficiente para ver a maravilhosa cena do público pogando, pulando, fazendo coro e participando. Fazia muito tempo que não sentia essa energia e participação do público em show nosso aqui na região de São Paulo. No final, fizemos questão de cumprimentar o público com aquele abracinho de fim de espetáculo. Um sincero agradecimento á estas pessoas que nos fazem continuar cada vez mais confiantes. E faço propaganda mesmo, porra!
Sétima banda a tocar, a banda Esgoto, em minha opinião a melhor do Brasil, já veio de outro show na região da Vila Brasilândia. Mas a energia do show deles era sim cada vez maior e melhor, pois fizeram uma das melhores performances da noite apesar do cansaço de já terem tocado há poucas horas atrás. E o público deu show mais uma vez, pogando na paz (tinha até desafeto meu que morre de vontade de estourar minha cara, conforme última ameaça, quietinho pogando ao meu lado) e ajudando nos backin vocals dos hinos eternos desta banda simplesmente foda! Punk rock sem frescura, Punk rock na veia!
Enquanto a cerveja tinha já acabado e o público começava a exterminar as bebidas fortes que tinham no bar enquanto o novo lote de cerveja não chegava, o Deserdados montava seus equipamentos para iniciar sua apresentação, enquanto o polivalente operador leigo de mesa de som, integrante de banda, integrante da organização, controlador chato de palco, pogueador e cachaceiro também fazia as vezes de DJ - aliás, isto em todos os intervalos de bandas. O show do deserdados foi bacana especialmente pois foram apresentadas várias músicas do terceiro CD da banda, projeto existente e comentado há anos e que espero que agora saia de vez. Neste meio tempo, com a saída do ex-batera Jamaica, a banda ficou um tempo parada e voltou ano passado com baterista novo e esta apresentação mostrou até mesmo certo amadurecimento na performance do novo batera, maior entrosamento da banda e recuperação da qualidade do som – quando um integrante sai, não adianta, não fica a mesma coisa, é preciso muito trabalho pra retomar o mesmo nível. O público participou ativamente, tão ativamente que chegou até a tomar microfone para cantar as músicas fora do tempo e inverter estrofes. Mas isso não é ruim não. É sinal de que o evento estava era cada vez melhor!
Nona banda, era a vez do DZK, uma das bandas mais aguardadas da noite, fazer sua apresentação que todos já sabiam como ia ser: Muito foda. O Baterista Makarrão estava mais bêbado que o convencional e o som rolou meio que de forma arrastada. Mas quem ligava pra isso? O pau comia no palco e no pogo e eu já derrotado no mezanino da mesa de som arriscava uns passinhos cansados enquanto dispersava o povo que ficava avacalhando na passagem da área de fumantes para a escada.
Décima banda a tocar e a melhor surpresa da noite, foi a hora do Avante! Dizer o que: Punk rock do bom, do melhor, do ótimo, do excelente, do “mara”, do caralho! Muito bem tocado, extremamente empolgante, banda entrosada e carismática no palco. Ganhou um fã. E vários outros também... A casa já não estava tão cheia assim (sempre tem os que vão só pra ver as bandas mais conhecidas), mas isto não tirou o brilho da apresentação desta banda.
Neste caso, faltariam duas bandas para tocar: Filhos da Desordem e Total Terror DK. Mas a banda Filhos da desordem não pôde comparecer e a banda Kob 82 foi escalada para substituí-los. Mas no dia do evento, o vocalista Tatu ficou doente e a Kob também não pôde tocar. E no caso do Total terror DK, havia show na mesma noite com o Dance of days, outra banda do vocalista Nenê Altro, e não conseguiram chegar a tempo em São caetano. Seria o fim? Não! A solução veio da colômbia, estava no som pogando e tinha nome: KRH.
Décima primeira e última banda da noite, o KRH pegou instrumentos e peças de bateria emprestados e descarregou seu Crust violento pra cima dos que ainda insistiam em estar ali assistindo ás bandas, uma apresentação de qualidade destes guerreiros do underground que mereceu todo o apoio dado por quem se dispôs a ajudar.
Eram então 3 e meia da manhã e assim encerravam-se as bandas. Mas não o evento! Prevenido com sempre trouxe meu equipamento de discotecagem de última geração (um netbook véio com virtual DJ) e fiz uma discotecagem com o melhor do Punk 77 que aos poucos foi formando uma grande roda. Uma solução de emergência que fechou o evento com chave de ouro. O público estava tão empolgado que, quando comecei a tocar coisas como samba rock ou Tim maia, continuavam dançando. Tive que parar o som e gritar para que o povo fosse embora para que pudéssemos fechar a casa. Mas ainda teve quem ficasse. Estes aí pegaram na vassoura, na pá de lixo, varreram o chão, recolheram latinhas enquanto eu fiquei com a ingrata missão do banheiro masculino, lutando bravamente contra um troço de merda grosso que boiava no vaso (quem cagou aquilo deve estar andando com as pernas abertas até agora) que não ia embora, pelo contrário, o vaso entupiu (tinha um balde de lixo do lado do vaso, mas tem gente que pensa que privada é lixeira), sem falar nos papéis higiênicos espalhados no banheiro. Mas, se estava bagunçado, é porque o evento foi sim de extrema Grandeza.
6 da manhã, enfim, após bem mais de 12 horas de punk rock e trabalho, pudemos rumar á nossas casas, esgotados, mas felizes e satisfeitos. Afinal, um evento que não deu prejuízo, local e aparelhagem devidamente pagos, incrivelmente nenhuma briga pelo que se saiba, todo mundo feliz, alegre satisfeito e bêbado. Que venha o Manifest! É dia 19 de novembro, hein pessoal!


segunda-feira, 4 de julho de 2011

12 horas de Punk Rock

Está chegando mais um Pré ManiFest! Será dia 9 de julho, com 12 horas de punk rock rolando. Serão 12 bandas fazendo uma prévia do que será o maior festival da América Latina, O ManiFest, que rolará em novembro.

O som acontecerá no Cidadão do Mundo, em São Caetano do Sul, a partir das 18h00.